Uma doce reconciliação com a vida e com os outros

Faço 40 e sou feliz.

Ainda despenteada e descalça espreitou da janela do quarto e reconheceu um sol desperto, ilusionista, que lhe abriu um sorriso de alegria.

O dia iniciava-se na calmaria e convicto esplendor: era o radioso dilúculo da Restinga.

Ainda com todos a dormir: lavou os dentes, escolheu o biquíni, que lhe apetecia, vestiu o vestido de praia, comprido, engoliu o café do seu inicio perfeito; e saiu.

Contemplou a luz do sol de África que aparece, e parte sempre, no abalo das recordações infindáveis.

Aquele dia – especial – aparecia numa vontade resplandecente e sossego sereno; a água do mar, brilhante, retalhava uma luz incandescente – ofuscando os olhos azuis, ainda demorados de dormir – que a fez comover na emoção das lembranças dos seus.

Deteve-se na quietude. O que fazia daquele dia e lugar de Angola – singelo e despido – de tão especial era, talvez, porquanto, ali, existia harmonia necessária: respira-se a terra, escuta-se o tempo, toca-se e sente-se a vida; sem a ânsia de o mostrar, que se tem e se faz.

Avançou alguns passos no caminho do mar mágico de Benguela e uma lufada de ar, ameno, abriu uma linha, diáfana, sobre o sol. Distinguiu a certeza – pela via de um simples amanhecer – de quem vive mais do que diz e sente o que lhe chega. Não duvidava: fazia 40 e era feliz.

Lobito, Benguela, 28 maio de 2017